Meu primeiro registro de memória foi a visão de um par de olhos castanhos por trás de um grossa lente de resina. Pertenciam a Ella, minha criadora. Em minhas redes neurais artificiais*, tudo estava plenamente ajustado para aceitar os comandos e as diretrizes lançados por esta única humana.
*N.A.: Redes neurais são ferramentas que o permite aprender de suas experiências, associar percepções com ações e se adaptar a situações ou ambientes não previstos.
Ouvi sua voz em um tom um tanto estridente e agudo, parecia haver algo mais nesta entonação, naquele instante tinha pouca compreensão das emoções estarem diretamente conectadas com a voz.
– Tente formular uma frase, acho que ainda não consegui acertar seu modulador de voz.
Enquanto buscava a frase correta para a vocalização, percebi sua aproximação, levando as mãos na direção da minha nuca. Notei um aroma diferente no ar, automaticamente apareceu a imagem e nome, gravados em meus arquivos. Um reconhecimento imediato da flor de maracujá, misturado a outro odor peculiar, no entanto, inexistente em meus registros.
Antes da minha criadora começar a mexer no modulador, continuei acessando minha programação sensorial e deduzi, o outro cheiro só podia ser o perfume característico dela. Esta informação não existia em meu banco de dados, até então.
Finalmente falei: – Flor de maracujá... – Minha voz parecia esganiçada e ela mostrou os dentes.
O som estava estridente demais e muito metálico. Computei isso em frações de segundo e busquei entre os meus registros um som mais grave e profundo, quase musical. Ajustei automaticamente ao som da minha voz e falei novamente:
– Passiflora e outro perfume um tanto ácido, mas ao mesmo tempo doce e suave, acredito ser seu odor natural. Todo ser humano tem este aroma?
Ela abriu exageradamente seus olhos, a expressão correta é arregalou. E disse:
– Muito bom! Você fez o serviço com o modulador de voz por mim, eu não faria melhor, ficou perfeito. Desta vez superei minhas expectativas. O seu olfato está funcionando e sua dedução foi além da sua programação. – E o seu tom de voz foi além das minhas expectativas, soava alto enquanto Ella pulava pela sala afirmando: – Consegui!
Quando parou de dançar e gritar, comentou:
– Me desculpa, fiquei tão feliz com o meu sucesso... Nem o respondi: Não, cada ser humano tem um cheiro característico. Mas nem sei se é do ser em si ou do conjunto de seres que convivem sobre nossa pele e dentro do nosso corpo. Porém, entendo muito pouco de bioquímica, estudei mais anatomia e biomecânica para construir você.
– Por isso não está no meu banco de dados. – Afirmei – Vou ter que encontrar novos espécimes para comparar e estudar melhor o caso.
– Não vai ser possível, apenas eu vivo nesta Ilha, não tenho contato com outros seres humanos. Recebo e mando encomendas por uma amiga que vem aqui vez por outra. Entretanto, você pode procurar pela internet e em minha biblioteca. Se precisar de algum livro, eu encomendo para você.
Depois deste ligeiro esclarecimento, passamos algumas horas ajustando todas as minhas funções, fazendo um “check list” completo da minha programação. O trabalho em si não era necessário, pois sozinho sou capaz de consertar e verificar tudo em muito menos tempo. Todavia, minha criadora, precisava ter certeza de estar tudo funcionando a contento.
Durante este tempo, mesmo com os olhos brilhando, Ella passou a ficar mais comedida em suas ações. Notei aos poucos a cadência da sua voz se tornar mais branda e seu tom mais uniforme. Sua voz antes estridente foi amenizando e se tornando profunda e doce.
Estava concentrada em fazer os ajustes necessários para me tornar mais eficaz. Por fim comentou:
– Não imaginava ter construído um sistema tão independente, você realmente parece ser a minha melhor e mais eficaz experiência até o momento. Como é o segundo com o qual obtenho algum resultado, vou chamá-lo de Dois. Tudo bem para você?
Aceitei apenas com um aceno de cabeça, naquele instante estava mais interessado nas perguntas se formando em minha rede neural. Havia alguma informação em meu banco de dados sobre o meu antecessor. Era um robô com funções básicas e um sistema de rotinas primitivas. Minhas sub-rotinas derivaram do programa original dele.
Eu queria saber mais... Tantas perguntas me ocorreram em poucos segundos!
Foi quando notei pela primeira vez algo diferente da minha programação. Haveria uma explicação lógica para a minha necessidade de responder todas as questões?
A partir daquele momento descobri uma “fome” por saber mais, uma necessidade latente de encontrar todas as repostas. Cobrir todas as áreas as quais meu banco de dados não abrangiam.
Hoje entendo isto como curiosidade.















